Aliás,
não se mate nunca. Por nada. Para iniciar as postagens deste blog, resolvi
começar com algo que estou a fazer presentemente, então decidi escrever sobre Os
Maias de Eça de Queiroz. Não o livro, pois ainda não tive a rica oportunidade
de lê-lo, mas sobre a minissérie que foi ao ar na TV Globo em 2001, autoria da Maria Adelaide Amaral. Uma
minissérie que, diga-se de passagem, foi primorosamente bem produzida. Tomando
a liberdade de citar minha amiga Susy, se eu fosse filmar esta obra, creio que
faria tudo igualzinho, sem tirar nem pôr.
Acho
interessante o Eça de Queiroz. Meu primeiro contato com ele foi em A Relíquia,
um maravilhoso (e cômico) retrato do "mercado negro" de antiguidades
religiosas e de como nossa fé é fraca quando possui bases erradas. Engraçado
que antes disso, eu imaginava que Eça de Queiroz era mesmo “essa”, ou seja, uma
mulher. Imaginem o espanto quando descobri que não era rsrs. O segundo livro
que li de sua autoria foi O Primo
Basílio, ótimo também. Acho que ainda melhor que o primeiro.
Mas,
voltando ao que interessa, tive a ideia desse post ao assistir a cena em que Pedro da Maia (Leonardo Vieira) chora incontrolavelmente por ter perdido sua amada e decide por fim a sua vida.
O
drama de Pedro da Maia é bastante comovente. Um filho criado sob a barra da
saia da mãe e do padre, que se apaixona por Maria (Simone Spoladore) e se casa com ela a
contragosto de seu pai. Aliás, ele só faz isso depois de posto contra a parede
por ela. Casa-se, tem dois filhos, a
esposa foge com um italiano amigo seu levando sua filha, e ele se mata por
conta disso. O Eça de Queiroz tem dessas coisas, tanto em Os Maias quanto em O
Primo Basílio a traição vem de quem está perto, amigo, primo... Só ai já dava
uma história e tanto, mas ainda tem muito drama pela frente, tanto que novela
mexicana fica com inveja.
Percebe-se
algo machista na história, um homem (Pedro da Maia) comandado pelas mulheres
(sua mãe e depois sua esposa) e pela religião, e por conta disso tem sua vida
desgraçada. Quando Pedro se mata e seu pai Dom Afonso (Walmor Chagas) passa a criar seu neto Carlos
Eduardo (Fábio Assunção), ele decide que o menino será criado longe das mentiras da religião,
mas sim sob a luz da razão e da ciência (pensamento iluminista da época). Mas
não adiantou muito, visto que Carlos Eduardo acabou, sem saber, sendo amante da
própria irmã.
Apesar
de ser um escritor realista, Eça de Queiroz não extinguiu, pelo menos de Os
Maias o ar trágico das obras do romantismo, estilo que lhe precedeu, e o qual
ainda influenciava os escritos na época em que Queiroz lançou sua obra. Possuía
claro, o tom sarcástico típico do realismo, com as críticas á sociedade
moralmente hipócrita de Lisboa.
Mas
o romance nos deixa uma reflexão, Dom Afonso da Maia (pai de Pedro e avô de
Carlos Eduardo) repete incansavelmente: “Um homem que não controla suas
paixões, não possui controle sobre sua vida. É um títere!”. Novamente o
pensamento iluminista, razão acima da emoção. E, com efeito, tanto seu filho
quanto seu neto foram vítimas das paixões.
Mas
o que é o nossa vida? Ela é simplesmente a consequência de nossas escolhas, ou
o resultado de uma força maior e implacável que é o destino?
Mas
a frase que não me sai da cabeça, e que para mim é a síntese da obra, é a
última fala de Carlos Eduardo para seu amigo João da Ega (Selton Melo), referindo-se ao
cocheiro que já ia no final da rua: “Se corrermos ainda o pegamos”.
Apesar
de todo o sofrimento por que passou, Carlos Eduardo da Maia continuou em
frente. E assim é a vida, o futuro, não importa quantas vezes caímos, quão
grande foi a nossa dor, se corrermos, ainda o pegamos.
