terça-feira, 10 de julho de 2012

Não se mate por amor.


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Aliás, não se mate nunca. Por nada. Para iniciar as postagens deste blog, resolvi começar com algo que estou a fazer presentemente, então decidi escrever sobre Os Maias de Eça de Queiroz. Não o livro, pois ainda não tive a rica oportunidade de lê-lo, mas sobre a minissérie que foi ao ar na TV Globo em 2001, autoria da Maria Adelaide Amaral. Uma minissérie que, diga-se de passagem, foi primorosamente bem produzida. Tomando a liberdade de citar minha amiga Susy, se eu fosse filmar esta obra, creio que faria tudo igualzinho, sem tirar nem pôr.


Acho interessante o Eça de Queiroz. Meu primeiro contato com ele foi em A Relíquia, um maravilhoso (e cômico) retrato do "mercado negro" de antiguidades religiosas e de como nossa fé é fraca quando possui bases erradas. Engraçado que antes disso, eu imaginava que Eça de Queiroz era mesmo “essa”, ou seja, uma mulher. Imaginem o espanto quando descobri que não era rsrs. O segundo livro que li de sua autoria foi  O Primo Basílio, ótimo também. Acho que ainda melhor que o primeiro.
Mas, voltando ao que interessa, tive a ideia desse post ao assistir a cena em que Pedro da Maia (Leonardo Vieira) chora incontrolavelmente por ter perdido sua amada e decide por fim a sua vida.
O drama de Pedro da Maia é bastante comovente. Um filho criado sob a barra da saia da mãe e do padre, que se apaixona por Maria (Simone Spoladore) e se casa com ela a contragosto de seu pai. Aliás, ele só faz isso depois de posto contra a parede por ela. Casa-se, tem dois  filhos, a esposa foge com um italiano amigo seu levando sua filha, e ele se mata por conta disso. O Eça de Queiroz tem dessas coisas, tanto em Os Maias quanto em O Primo Basílio a traição vem de quem está perto, amigo, primo... Só ai já dava uma história e tanto, mas ainda tem muito drama pela frente, tanto que novela mexicana fica com inveja.
Percebe-se algo machista na história, um homem (Pedro da Maia) comandado pelas mulheres (sua mãe e depois sua esposa) e pela religião, e por conta disso tem sua vida desgraçada. Quando Pedro se mata e seu pai Dom Afonso (Walmor Chagas) passa a criar seu neto Carlos Eduardo (Fábio Assunção), ele decide que o menino será criado longe das mentiras da religião, mas sim sob a luz da razão e da ciência (pensamento iluminista da época). Mas não adiantou muito, visto que Carlos Eduardo acabou, sem saber, sendo amante da própria irmã.
Apesar de ser um escritor realista, Eça de Queiroz não extinguiu, pelo menos de Os Maias o ar trágico das obras do romantismo, estilo que lhe precedeu, e o qual ainda influenciava os escritos na época em que Queiroz lançou sua obra. Possuía claro, o tom sarcástico típico do realismo, com as críticas á sociedade moralmente hipócrita de Lisboa.
Mas o romance nos deixa uma reflexão, Dom Afonso da Maia (pai de Pedro e avô de Carlos Eduardo) repete incansavelmente: “Um homem que não controla suas paixões, não possui controle sobre sua vida. É um títere!”. Novamente o pensamento iluminista, razão acima da emoção. E, com efeito, tanto seu filho quanto seu neto foram vítimas das paixões.
Mas o que é o nossa vida? Ela é simplesmente a consequência de nossas escolhas, ou o resultado de uma força maior e implacável que é o destino?
Mas a frase que não me sai da cabeça, e que para mim é a síntese da obra, é a última fala de Carlos Eduardo para seu amigo João da Ega (Selton Melo), referindo-se ao cocheiro que já ia no final da rua: “Se corrermos ainda o pegamos”.
Apesar de todo o sofrimento por que passou, Carlos Eduardo da Maia continuou em frente. E assim é a vida, o futuro, não importa quantas vezes caímos, quão grande foi a nossa dor, se corrermos, ainda o pegamos.

1 comentários:

  • 10 de julho de 2012 às 13:41

    Maravilhoso post de estreia Marina.
    Amo essa minissérie e gostei muito da sua análise. Deixou muito blogueiro por aí no chinelo.
    Sua habilidade com as palavras deve ser mais explorada, tá ouvindo?
    E a propósito, não me esqueci da ideia de você colaborar lá no SEFF. Vamos amadurecer isso.
    Eu também achava que Eça era "essa" rsrs. mas, depois descobri que ele era machista por demais, metido a shakespereano (é muita tragédia) e extremamente realista. Que inclusive é a parte que eu mais gosto nele.
    E realmente, apesar das tragédias da nossa existência sempre precisamos levantar. Sempre.
    Me lembrei da Hosana agora... Ela me contou que durante o pior momento da tragédia pela qual ela passou tudo que queria era ficar debaixo do edredon chorando muito. Não dava. Ela tinha que enfrentar a continuidade do mundo.

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